{"componentChunkName":"component---src-templates-single-md-js","path":"/blog/a-cidade-de-sao-paulo-a-justica-e-a-morte-de-luiz-carlos-ruas/","result":{"data":{"markdownRemark":{"html":"<p><em>(Por <strong>Samia Bomfim</strong>. Artigo originalmente publicado em <a href=\"https://www.huffpostbrasil.com/samia-bomfim/a-cidade-de-sao-paulo-a-justica-e-a-morte-de-luiz-carlos-ruas_a_21697871/\" target=\"_blank\">sua coluna no HuffPost Brasil</a>, dia 06/01/2017)</em></p>\n<p>Conhecemos em S&atilde;o Paulo todos os dias hist&oacute;rias reais de dor, de batalhas e injusti&ccedil;as. Em algumas conseguimos intervir, com outras s&oacute; lamentar e sofrer junto. Me lembro da hist&oacute;ria de um homem pedindo ajuda para pagar R$3,80 na condu&ccedil;&atilde;o para voltar para casa depois de um dia sem sucesso de busca por um emprego. A hist&oacute;ria da mulher que apanha, n&atilde;o consegue emprego, engravidou e chora de desespero pensando no futuro. Do trabalhador ambulante negro que batalha todos os dias para sobreviver, &eacute; solid&aacute;rio com uma travesti e &eacute; assassinado na noite de natal pela estupidez humana.</p>\n<p>Para a maioria, S&atilde;o Paulo &eacute; uma cidade cara, injusta, &eacute; uma m&aacute;quina de moer gente nas dist&acirc;ncias de tr&ecirc;s horas de transporte lotado e sucateado. A cidade nos destroi f&iacute;sica e psicologicamente. Sempre que vejo um gesto r&iacute;spido e mal humorado de algu&eacute;m no empurra-empurra do metr&ocirc;, penso sobre como n&atilde;o deve ter sido o dia, a semana ou a vida daquela pessoa. Muitas vezes o mal humor, a estupidez e o individualismo s&atilde;o consequ&ecirc;ncia de dias de batalha e de sofrimento invis&iacute;veis a olho nu. Morar nessa cidade pode ser uma guerra individual. Criar uma casca de individualismo &eacute; uma consequ&ecirc;ncia inconsciente diante dessa guerra. Talvez seja por isso que um gesto de solidariedade em S&atilde;o Paulo signifique muito e nos comova tanto. N&atilde;o perder a capacidade de se indignar e lutar &eacute; uma das maiores virtudes humanas.</p>\n<p>Acredito que a hist&oacute;ria de &Iacute;ndio tenha nos comovido al&eacute;m do comum justamente por todas as simbologias e significados sobre o cotidiano de barb&aacute;rie que nela se expressam. Luiz Carlos Ruas era imigrante, trabalhador, negro, ambulante. Como milh&otilde;es nessa cidade, era um invis&iacute;vel que vive de seu trabalho mal remunerado, sem direitos, sob riscos da a&ccedil;&atilde;o do rapa, da viol&ecirc;ncia urbana, da crise e dificuldade nas vendas, da indiferen&ccedil;a dos milhares que passam pela esta&ccedil;&atilde;o D. Pedro II. Hoje temos relatos de seus conhecidos de que era um homem generoso, afetuoso e solid&aacute;rio. Diante de uma de cena de &oacute;dio e intoler&acirc;ncia, diferentemente da maioria, resolveu intervir, mas dois homens o espancaram at&eacute; a morte por isso. Assistimos at&ocirc;nitos ao v&iacute;deo da cena terr&iacute;vel, &agrave; aus&ecirc;ncia de seguran&ccedil;as de um metr&ocirc; cada vez mais sucateado pelo governo do estado, &agrave; indiferen&ccedil;a dos transeuntes e nos perguntamos: de onde vieram esses dois homens agressivos, desumanos, portando soco ingl&ecirc;s, assassinos de um ambulante solid&aacute;rio com uma travesti na noite de natal? &Eacute; a dureza dessa cidade e desse mundo que forma indiv&iacute;duos assim?</p>\n<p>Era noite de natal. Em todos os lugares nos ensinam o significado do nascimento e da vida de Jesus Cristo - fazer o bem, ser justo, solid&aacute;rio, acolher os mais necessitados. Assim fez Luiz Ruas. N&atilde;o o conhecia, mas certamente &Iacute;ndio ainda n&atilde;o tinha criado a casca do individualismo que S&atilde;o Paulo nos faz desenvolver. Sua condi&ccedil;&atilde;o de vida prec&aacute;ria, as dificuldades que enfrentava, nada disso o fez perder o sentimento de solidariedade. Era uma travesti. Quase ningu&eacute;m se importa com travestis. 90% delas se prostituem para sobreviver. Todos os dias pelo menos uma delas morre em S&atilde;o Paulo, tantas outras s&atilde;o pisadas, xingadas, agredidas, expulsas de casa, expulsas da escola, n&atilde;o aceitas por nenhum empregador, moram na rua.</p>\n<p>Precisamos lutar por justi&ccedil;a para Luiz Carlos Ruas, por este homem que virou her&oacute;i, evitando que mais uma travesti virasse estat&iacute;stica. E precisamos lutar contra a LGBTfobia. Esse clima de &oacute;dio e desesperan&ccedil;a n&atilde;o pode nos fazer desistir de almejar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de acolhimento e gera&ccedil;&atilde;o de oportunidades, dignidade e renda &agrave; popula&ccedil;&atilde;o LGBT, de ensino &agrave; toler&acirc;ncia e respeito das escola, forma&ccedil;&atilde;o de servidores, campanhas e todo tipo de a&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria. Homof&oacute;bicos e intolerantes devem se sentir envergonhados, n&atilde;o mais encorajados, como vemos nas ruas e na internet todos os dias. Endosso a campanha para que a esta&ccedil;&atilde;o D. Pedro II passe a chamar Luiz Carlos Ruas, para lembrar a todos que o &oacute;dio e a intoler&acirc;ncia n&atilde;o podem ser maiores que a for&ccedil;a da solidariedade.</p>\n<p>Fico imaginando se o que aconteceu com &Iacute;ndio, e o que quase aconteceu com aquela travesti, n&atilde;o poderia ter sido comigo ou com muitas pessoas que conhe&ccedil;o, que tamb&eacute;m se indignam e se movem diante de injusti&ccedil;as. Mas era noite de natal, n&oacute;s est&aacute;vamos em paz, acolhidos em casas com mesas fartas. N&atilde;o est&aacute;vamos morando na rua ou trabalhando como ambulantes na noite de natal. A inseguran&ccedil;a e a LGBTfobia tamb&eacute;m s&atilde;o quest&atilde;o de classe.</p>\n<p>Luiz Carlos Ruas, presente! Que seja feita justi&ccedil;a e todas as homenagens que esse her&oacute;i merece.</p>","fields":{"slug":"blog/a-cidade-de-sao-paulo-a-justica-e-a-morte-de-luiz-carlos-ruas/"},"frontmatter":{"categories":[],"publish_date":"2017-01-06T16:54:05.000Z","title":"A cidade de São Paulo, a justiça e a morte de Luiz Carlos Ruas","description":"(Por Samia Bomfim. 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