Sâmia pede ao STF investigação sobre rede de tráfico internacional de mulheres ligada a Vorcaro

Ao ministro Fachin, deputada solicita identificação e proteção de possíveis vítimas, rastreamento de pagamentos e cooperação com autoridades estrangeiras após reportagem revelar “sociedade oculta” do banqueiro em agência de prostituição

14 out 2026, 17:30 Tempo de leitura: 3 minutos, 37 segundos
Sâmia pede ao STF investigação sobre rede de tráfico internacional de mulheres ligada a Vorcaro

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) encaminhou, nesta terça-feira (13), um ofício ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, solicitando novas diligências para apurar indícios de tráfico internacional de pessoas para fins de exploração sexual em fatos relacionados a Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e ex-proprietário do Banco Master. O pedido foi motivado por uma reportagem do UOL que revelou a participação de Vorcaro em uma rede internacional de prostituição, com recrutamento de mulheres estrangeiras, inclusive refugiadas.

No documento, Sâmia solicita que sejam investigadas as circunstâncias do recrutamento, do deslocamento entre países e da contratação das mulheres, além da atuação de intermediários e do possível uso da agência Allure Eventos para organizar as atividades e centralizar os pagamentos. O ofício também pede o rastreamento dos recursos financeiros e a cooperação jurídica internacional com os países eventualmente envolvidos.

“A preocupação decorre da possível utilização deliberada de situações de vulnerabilidade para viabilizar o recrutamento e a exploração de mulheres, hipótese que deve ser examinada à luz dos elementos concretos da investigação”, afirma Sâmia no documento.

‘Creche’ e ‘escravas’ refugiadas

Publicada em 13 de outubro, a reportagem aponta que Vorcaro teria investido ao menos R$ 4,3 milhões em uma estrutura que recrutava mulheres para eventos privados com autoridades e pessoas próximas ao banqueiro. Mensagens obtidas pela reportagem indicariam que ele não apenas financiava a operação, mas também participava de decisões sobre seleção, contratação e pagamentos.

Segundo a apuração do UOL, Vorcaro atuava como “sócio oculto” da rede de prostituição, enquanto intermediários eram responsáveis pelo aliciamento, pela organização dos eventos e pela logística. As conversas mencionam mulheres de diferentes nacionalidades, incluindo ucranianas, russas, venezuelanas, argentinas e polonesas, algumas em condições de vulnerabilidade relacionadas a conflitos armados, deslocamento forçado e ausência de redes de apoio.

Vorcaro e o promotor de eventos Diogo Batista usavam termos como “escravas” e “kengas” para se referir às mulheres, enquanto as mais novas eram tratadas como “creche”  e “mucilon”. As conversas também mostram tratativas envolvendo uma refugiada ucraniana de 19 anos, que não tinha condições de retornar ao país em meio aos bombardeios. Os interlocutores discutiram mantê-la no Brasil e incluí-la na agência, enquanto Vorcaro participava de decisões sobre quais mulheres seriam mantidas ou dispensadas do grupo.

No ofício, Sâmia afirma que as circunstâncias relatadas precisam ser examinadas em conjunto com os demais elementos da investigação. Segundo o documento, elas “podem indicar que as atividades investigadas não se limitavam à contratação de serviços sexuais, mas eventualmente envolviam uma estrutura organizada de recrutamento, transporte, transferência ou alojamento de mulheres para fins de exploração sexual”.

Identificação e proteção das vítimas

Entre as principais providências solicitadas ao STF está a identificação das mulheres recrutadas ou encaminhadas aos eventos, com salvaguardas para preservar sua intimidade e segurança. O documento pede que sejam apuradas as condições apresentadas para a contratação, a remuneração, os pagamentos realizados, a eventual retenção de valores ou documentos, a existência de dívidas e possíveis ameaças ou outras formas de constrangimento.

Sâmia também solicita a análise das comunicações eletrônicas, dos registros empresariais, dos contratos e dos demais elementos já apreendidos que possam esclarecer a participação de Vorcaro e de terceiros. O pedido inclui o exame de transferências bancárias, faturas, pagamentos e despesas com passagens, hospedagens e serviços de intermediação, além da avaliação de medidas de cooperação jurídica com autoridades estrangeiras.

A proteção das mulheres durante a investigação é outro ponto central do ofício. Sâmia solicita que sejam avaliados encaminhamentos à rede de saúde e medidas para evitar a revitimização, especialmente no caso de mulheres estrangeiras e refugiadas. O objetivo, segundo o documento, é assegurar “o respeito à dignidade, à intimidade e à autonomia das mulheres”, evitando qualquer discriminação relacionada à nacionalidade, à situação migratória ou ao exercício voluntário da prostituição.

Texto: Leandro Rodrigues (ASCOM-Sâmia), com informações do UOL
Foto: Reprodução/Web