Em defesa do Bixiga e do Oficina

A disputa do terreno que circunda o Teatro Oficina, no Bixiga, se arrasta há 37 anos, desde quando Silvio Santos comprou e demoliu os pequenos imóveis que existiam no local com o intuito de construir um grande empreendimento imobiliário. O projeto, consistente na construção de mais de mil apartamentos em três torres de cem metros de altura, teve, até este ano, a oposição de todos os órgãos de proteção ao patrimônio histórico e cultural, uma vez que implica em uma agressão ao perfil do bairro e também no “encaixotamento” do Teatro, tombado a nível municipal, estadual e federal pelo seu alto valor cultural e arquitetônico.

Por solicitação nossa, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal realizou em setembro uma audiência pública no próprio palco do Oficina, com o intuito de debater a situação dos baixos do viaduto da Rua Jaceguai, cuja utilização pública tem direta ligação com a disputa existente em torno do uso do terreno. Com participação de diversos grupos do bairro, e sob o impulso do Terreyro Coreográfico, a questão das torres já se apresentava como um elemento de alto risco, dada a pendência de um recurso de Silvio Santos no Condephaat e a nova configuração do órgão. O risco debatido na ocasião tornou-se, por sua vez, em uma ameaça concreta no mês de outubro, com a controversa aprovação das torres pelo Condephaat.

O Teatro Oficina, considerado pelo The Guardian "o melhor e mais intenso teatro do mundo", é um patrimônio da cultura brasileira. Em atividade desde 1958 sob a direção do ator e dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, o Oficina é a mais antiga companhia cênica em funcionamento no Brasil e é referenciada mundialmente por sua dramaturgia inovadora. Seu espaço físico, reformado em 1984 sob o projeto premiado dos arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Elito, interage com o bairro do Bixiga através de um janelão de 120m², que os empreendimento imobiliário do Grupo Silvio Santos intenta descaracterizar e sobrepor.

Impactado diretamente por este projeto da especulação imobiliária, o bairro do Bixiga também está ameaçado pela construção das torres. Com um perfil de casas geminadas, ruas estreitas e forte vocação cultural, o Bixiga abriga grande parte dos imóveis tombados de São Paulo e corre o risco de ser descaracterizado sob a sombra dos prédios de alto padrão, cuja construção afetaria também áreas envoltórias de outros prédios protegidos como a Casa de Dona Yayá e o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). O empreendimento de Silvio Santos, portanto, mais do que afetar o Oficina, representa o assassinato do território do Bixiga, alterando seu perfil, congestionando suas ruas, encarecendo seu custo de vida e abrindo forte precedente para a sua verticalização.

Considerando todas estas questões, os órgãos de proteção ao patrimônio foram categóricos até ano passado quanto à inviabilidade do empreendimento, negando ao Grupo Silvio Santos a edificação no terreno. Com a aprovação pelo Condephaat, o empreendimento pode agora ser finalmente autorizado pelo Conpresp e o Iphan, cuja atual composição favorece a especulação imobiliária.

Diante deste grave retrocesso e do risco de que as torres de fato sejam de fato aprovadas pelos demais órgãos de proteção, o Oficina e diversos grupos do Bixiga ocuparam as ruas do bairro no dia 26 de novembro, em um abraço simbólico ao terreno. Reuniram-se grupos artísticos, musicais, atores/atrizes, parlamentares, moradores e apoiadores em uma ato ecumênico e artístico contra a especulação imobiliária e em defesa do Oficina e do Bixiga. Frente à proposta de construção das torres, defendemos a desapropriação da área para a criação do “Parque do Bixiga”, idealizado por Lina Bo Bardi quando da idealização do projeto arquitetônico do Teatro Oficina na década de 80. Isso é possível e necessário, e o mesmo resultado pode se dar por meio de uma troca de terrenos com o Poder Público, que já foi aceito por Silvio Santos em outro momento, mas que foi declinado dada a possibilidade de aprovação do empreendimento pelos órgãos de proteção.

Com a perspectiva de que já na próxima semana o projeto seja analisado pelo Conpresp, cuja atual configuração coloca em risco seu posicionamento histórico, estamos somando forças com a comunidade artística e os moradores do Bixiga para que os conselheiros não aprovem este retrocesso. A depender de sua posição, novas medidas serão tomadas no âmbito judicial e político. Torres não passarão!

#VetaAsTorres #FicaOficina

Outras notícias